A LINHA DE FRONTEIRA SE ROMPEU 
a terra e a palavra
 

by

Aquiles Coelho Silva

Playlist: https://youtube.com/playlist?list=PLmlWiBBwPdEOiDEiwqPMPmv9PLH_lHdPY

 
 

Introdução

the finitude of this earth will unite us against the infinity of space and time
and the nostalgia for Unity
(Korakrit Arunanondchai, Unity for Nostalgia)

Há alguns anos, escutei na voz da ativista quilombola Zica Pires: “a gente precisa brigar por um espaço na cidade, ou a gente precisa brigar para que não haja cidade?” (Zica Pires). Essa pergunta me motivou a refletir sobre as (im)possibilidades de vida e revolta com a cidade, especificamente desde São Paulo. 

E se esse lugar chamado de cidade, essa noção de desenvolvimento urbano, for só uma desculpa para matar as Coisas em nome do progresso?

Pouco é possível quando se está só. Então trago comigo uma série de vozes, reuidas, sampleadas (Coelho Silva), que compõe este corp’a’escrever e estão agrupadas na playlist que acompanha o texto. São essas vozes, ou esse esforço de coletivizar enquanto aviva-se a escrita, que tornam o pensamento contra o desenvolvimento possível. 

A busca por uma escrita com a terra em outra chave que não a do progresso e do aperfeiçoamento (Moten e Harney, Tudo incompleto) me levou a pensar a cartografia – prática de fazer mapas – de outras formas. Tendo o sample como método e utilizando a colagem e a poesia, desenvolvi uma pesquisa entorno da cartografia onde crio mapas poéticos, sampleando textos de origens diversas e trazendo-os para mais perto da terra. Uma forma de jogar com a exatidão dos mapas, de trazer a sua leitura algo de incompleto. Uma forma de experimentar o experimental.

Alguns dos mapas poéticos que produzi ao longo desse período permeiam esse texto para compor com ele uma abertura à outros modos de perceber a terra, que não àquela marcada pela propriedade colonial da terra, um sequestro. Quando Waly Salomão, poeta e multiartista, pergunta, e agora, o que que eu sou?, ouço algo dessa contiguidade inexorável, da impossibilidade de separar, organizar, determinar o que é quem, ouço alguma outra coisa que não é humano, que não é espaço. A cabeça, também gosto que avoe. Jogo com este entrelugar que a poesia e a música popular brasileira habitam, entramadas como apontou Waly Salomão, para fazer dessas representações um lugar onde imaginação, memória e invenção podem participar do jogo. 

Tem um culto da transparência, eu não partilho desse culto, porque é mascarado que você vai adiante. [...] Eu acho que você pode olhar nos meus olhos e não estar vendo absolutamente nada. Eu partilho mais disso, quer dizer, de um discurso propositadamente a favor da opacidade (Waly Salomão in. Pan-Cinema Permanente)

Como dizer espaço, sem redizer humanidade? 

(ou uma tentativa de romper a linha de fronteira entre o meu ser e o ser
alheio através da ciência dos cuidados na qual fui treinado
)

O grande ciclo de colonização, que trouxe a Europa pra América, que invadiu a América há 500 anos, foi o primeiro grande gesto de devoração do mundo. O ciclo das navegações, quando Espanha, Portugal, Inglaterra, França decidiram que iam botar o mundo pra rodar, eles botaram mesmo, eles produziram todo esse efeito que a gente chama de progresso, avanço, desenvolvimento... Só que o outro lado de progresso, avanço e desenvolvimento é a devoração da vida no planeta. Quando nós, os humanos, estivermos ameaçando para além da conta o equilíbrio da vida nesse organismo Gaia, o organismo vivo da terra, a espécie do humano vai ser despejada, como um inquilino que não tem educação. Um inquilino quebra tudo, a casa joga o inquilino pra fora. [...] Então eu gosto dessa ideia do Oykos, a nossa casa comum, cuspindo a gente pela janela por falta de bom comportamento. Seria o fim mais glorioso dos tais dos humanos. Seria a altura da humanidade um desaparecimento breve, para que a vida no planeta continue existindo. (Krenak)

Quando ouço Krenak falar da colonização, da devoração de Gaia, penso nas formas como entendemos o espaço a partir da separação do mundo entre a civilização e a barbárie, o social e o natural. A colonização desenvolve, pratica e violentamente estabelece em escala global o espaço enquanto objeto, alheio e separado do domínio da humanidade pois pertencente ao domínio da natureza. Na medida em que o espaço é tornado segmentável (separabilidade) e, portanto, identificável enquanto singularidade (determinabilidade), ele é também juridicamente descrito e viabilizado como mercadoria-capital precificável de acordo com sua localidade e possibilidades de extração (sequencialidade). 

O espaço moderno não precisa ser homogêneo, mas deve ser passível de homogeneização – bem como de qualquer transformação que o sujeito humano pense nele infundir: o espaço moderno é esfera sob controle do homem. Sendo parte de um todo, abstrato, “uniforme, sem nenhum lugar privilegiado” (Sodré 26), qualquer ponto desse espaço nega suas características singulares e se dispõe ao homem, para que dele se aproprie. Não há, aqui, sujeição do homem ao espaço: em nenhuma medida esse homem é afetado pelo espaço. É esse homem que do espaço se apropria, que o doma, o ocupa, o subjuga.

A separação do espaço frente ao corpo humano e mais-que-humano como um dos problemas, centrais que a modernidade impõe à reparação do seu passado-futuro recente: o empreendimento colonial. Trata-se da negação do trabalho escravizado, negro e indígena, enquanto produtor de valor. Valor que desaparece mesmo em análises rigorosas sobre a acumulação primitiva, como já apontado por Ferreira da Silva. Todavia não se trata apenas do trabalho escravizado, mas também daquilo que antecede a escravidão e dela se desdobra, do trabalho e daquilo que o excede, como existência, energia aplicada, exercício vital realizado. Em Ancestral claims: negative accumulation, deep implicancy & the case for general emancipation a autora traz uma leitura do trabalho, em sua relação direta com o calor e a energia cinética que auxilia a lidar com este impasse teórico e ético, que compõe o exercício de reparação.

I don’t need to say much to support the point that coloniality that is, the mode of governance that relies on the deployment of total violence to ensure expropriation of internal energy of the lands and bodies–has facilitated this concentration for over five hundred years now. That being the case, it is not unreasonable to point to the fact that the accumulation of these gases also expresses (materially) the extent and intensity of the degree of concentration of expropriated internal (kinetic) energy facilitated by coloniality and the other juridic economic mechanisms of state/capital. (…) More precisely, I am interested in proposing a description of what happens, in the very process of generating greenhouse gases, that is, in the transformation of energy or transduction of potential (labor) or internal kinetic (calor) energy, that is, one takes place when something is applied to provoke an alteration of something else (labor) and the other by its mere existence among everything else (calor) (Ferreira da Silva, “Ancestral Claims” 166)

Tomando o trabalho, energia (cinética) interna, como parte do processo de cuidado e/ou cultivo da terra, a fertilidade do solo – tema crucial para os economistas dos séculos XVIII e XIX, como Karl Marx, que tinham o solo e sua produtividade como objeto tema central em sua ciência – poderia ser considerada também como trabalho acumulado, cristalizado? Não trabalho humano, ou apenas humano, mas trabalho vivo cristalizado, das árvores, rios, pedras, animais, fungos e todos os outros seres viventes ou não que compõe este mundo. De tudo aquilo que foi cultivado sem que isso implicasse em qualquer regime de propriedade. Se assim o for, o que a indissociabilidade entre este regime de cultivo e a fertilidade do solo significa eticamente? 

O que trago aqui como empecilho à reparação está diretamente conectado a essa mesma subordinação ética, jurídica e econômica contra aquilo que se estabelece enquanto contraproducente, frente à racionalidade econômica capitalista. Uma das questões que este empecilho gera, quando pensamos em termos de descolonização, isto é, do retorno do valor total expropriado dos corpos escravizados e territórios colonizados, é a recusa a contra-producência implicada neste regime de cultivo-para-existência, nessa implicabilidade entre corpos humanos e mais-que-humanos e a terra, enquanto solo, território, meio e espaço. Há que lembrarmos, novamente com o diálogo entre Ailton Krenak e Liz Mosken, que

essa disposição do humano pra incidir sobre o corpo da terra é recente, é um evento que a gente poderia marcar na modernidade. É um evento da modernidade essa ideia do humano comendo a terra. uma das marcas no tempo que alguns pensadores consideram que inaugura essa modernidade, coincide com a circunavegações, quando a Europa começou a comer o mundo ao seu redor, agarrando gente na África pra trazer pra América, como escravizados, e invadindo continente inteiros com essa fúria extrativista, isso seria o ensaio da modernidade. (...) Então até outro dia, tudo era sagrado (Krenak).

Não me interesso, neste momento em definir-organizar o espaço como algo mais que uma Coisa, porém como forma de acessá-la, interagir, trago aqui elementos poéticos, que intermediam esse contato. Sim, eu sei que o pensamento moderno se configura como uma estrada venenosa e cheia de morteiro, um campo minado do qual já pensei vezes de mais em me jogar, o que me resta agora é não vacilar – imagear o que poderia vir a ter sido um (novo) território existencial e físico (Nascimento). Acontece que é justamente neste estágio de indeterminação, isso é, da Coisa ou matéria liberada das garras das formas do entendimento que torna-se possível falar sobre uma reparação contra-colonial. 

Como escrever então sobre essa relação com a terra, de uma forma de reparar, buscar justiça, retornar o valor? Se o que conhecemos no Brasil de mais cuidadoso e reparativo, neste sentido, se dá justamente por meio das práticas dos povos originários, comunidades tradicionais e quilombolas, por meio daqueles que vivem e encantam contra a imposição violenta da realidade colonial e capitalista – entendo que o diálogo com suas produções, práticas e trajetórias é central. Quando ouço que a terra dá a terra quer, penso este trabalho de contra-violência demanda um empenho, uma energia equivalente ou maior que aquela empregada pela violência colonial, e assim como ela, constante. Uma abundância de cuidado capaz de fazer frente à , um trabalho que possa ser pensado para além de temporalidades lineares, estendido no cosmos como um corpus-infinitum (Ferreira da Silva, Reading the Dead... 42). A esse sonho, tenho dado o nome de cultivo.

Olhando para mim mesmo, me lembrei de como as mais velhas, minha mãe e tantas outras, me ensinaram, por exemplo, da possibilidade de cuidando de outrem, cuidar de si. Não é técnica precisa, não demanda ser a única, mas existe e se mostrou sábia. É assim que tenho pensado cultivo, não como inovação teórica, mas como ato de retomada de um saber a muito praticado, como via para uma escrita que busca retribuição à terra por tudo aquilo que ela nos dá. 

Um tipo de trabalho contínuo, um esforço de fortalecimento das formas de vida que insistem em algo diferente daquilo que nos trouxe a este cenário apocalíptico de crise climática e ampliação das tecnologias de violência total. Um movimento ético em torno da insistência na continuidade da vida em todas as suas formas, que viabilize inclusive novas possibilidades de existência contra este contexto de extrativismo extremo do valor (das terras e corpos cativos).

Mas como pensar cultivo em um cenário que necessariamente já explica essa mesma técnica, como necessidade? Algo que o atraso antropológico e a carência sociológica elaboram, exaustivamente. Uma movimento de engolfamento (Ferreira da Silva, Homo Modernus) que intercepta essa leitura do cultivo, que o relê e o explica, organizado enquanto objeto do saber. Como jogar com o julgo da linguagem?

Como escrever rebelry?

An act, a disposition, or a planned or unplanned response, however it manifests — as individual refusal or collective insurrection — rebelry names an unmistakably political response. Oxford English Dictionary has one short definition for it: “behavior characteristic of a rebel,” that is, which it defines as “a person or thing that resists authority or control.” Under the current conditions, it remains the most appropriate response to global capital and its symbolic and institutional mechanisms of reproduction. (Ferreira da Silva, “Rebelry”)

Tomando o cultivo enquanto prática de cuidado contra-colonial e improdutiva (parcialmente inapropriável pelo capital), o vejo como ato de rebelry. Mas como escrever rebelry? Experimentando com esta pergunta tenho pensado com a música, em especial com o Hip-Hop, como prática pedagógica performática que se desdobra ao longo da escrita de minha dissertação (Silva). Com o Hip-Hop tenho proposto uma escrita em relação com a terra, desde a cidade. Com o sample, vejo a escrita como uma colagem. Quando 2Pac dá a thug life, lida junto à articulações da malandragem, por alguns malandros, pela velha guarda:

when I’m saying thug, I mean not criminal, someone that is going to beat you in the head, I mean the underdog. The person that has not succeeded his a thug, ‘cause he overcame all the obstacles. To me thug is my pride, not being someone that go against the law, not being someone who takes,  but being someone who has nothing and even though I have nothing and have no home to go, my head is up high, my chest is out, I walk tall, I talk loud, I’m being strong. […] I don’t know why America doesn’t understand thug life, America is thug life (Tupac: Resurrection). 

Uma das coisas que pensar com o Hip-Hop em uma perspectiva informada pelo Pensamento Negro Radical me permite, ou conduz a fazer, é tomar a música negra como parte deste arcabouço que os estudos negros oferecem. Uma possibilidade criminal (Moten e Harney, The University and the Undercommons) que permite alguma liberdade, requer certa imaginação. Uma possibilidade criminal como a daqueles que insistem em trazer o Hip-Hop para a academia não para explicá-lo, mas para com ele adentrar o poder, saquear o cofre e garantir a fuga. As vindicating thug-life asking the right to life for black people, thugs included. Como malandragem consciente. 

Malandro...
Eu ando querendo falar com você...
Você tá sabendo que o Zeca morreu
Por causa de brigas que teve com a lei?

Associar a escrita ao pensamento negro radical têm sido também pensar sobre aquilo que acontece com a violência, devido a violência, mas que também excede seu poder explicativo. Neste caso, isto é imaginar a perene prática de assegurar a existência: sua própria, dos seus e daquilo que viabiliza essa existência – o mais-que-humano que a modernidade convenciona chamar de ambiente – em um ambiente hostil. Para tal penso com outras formas de escrita, da escrevivência (Evaristo) e dupla-fala (Martins), aos plurais registros que combinam autoficção, prosa, poesia, etnografia ou memória, dentro do universo da produção escrita negra brasileira. Aqui, trago junto a escrevivência e a dupla-fala, nesse exercício de diálogo com aquilo que Ferreira da Silva chama de poética negra feminista:

A Poética Negra Feminista, uma modalidade da práxis radical, reconhece a capacidade criativa que a Negridade indexa, sua capacidade de expor e dissolver a separabilidade, reivindica o valor total expropriado e exige nada mesmo do que a descolonização - isto é, uma reconstrução total do mundo através da restauração do valor total sem o qual o capital não teria prosperado e do qual ainda se sustenta. (Ferreira da Silva, A dívida impagável 96)

Na medida em que a escrevivência se faz, ou faz uso, também da imaginação, se encararmos a memória como ilha de edição, existe nesta prática a possibilidade de cruzar os limites existem como uma fronteira criada só pela mente (aqui, me referindo especificamente à sua compreensão moderna, enquanto significante da racionalidade, como dimensão-objeto fundante e organizadora da experiência moderna, em contraposição ao corpo, enquanto significante da intuição, dos sentidos). A escrevivência é também uma experiência de imaginação radicalmente encarnada, uma força que articula a recusa. 

Malandro...
Só peço favor de que tenhas cuidado
As coisas não andam tão bem pro seu lado
Assim você mata Rosinha de dor...

Nesse sentido a recusa é entendida como força po(é)tica, que parte de um contexto de violência racial e colonial e, a partir dele, demanda sua interrupção como forma de viabilizar a emergência, sustentação, existência e desabrochar de outras formas de ser/estar. Uma experiência de articulação da recusa como demanda urgente, e simultaneamente como horizonte. De reconhecimento da natureza repetitiva, incessante e expansiva da violência racial, à demanda pela quebra da linearidade temporal e repartição da matéria (corpos e mais-que-corpos) a fim do (re)estabelecimento e existência como mais-que-reconhecimento enquanto princípio ético fundamental. A recusa como forma de alcançar um feixe de horizontes que seja maior do que a resposta dialética que a trajetória do espírito hegeliana propõe.

Venho me perguntando o que acontece quando traduzimos rebelry por malandragem? Pode a malandragem apoiar o exercício da recusa, também, enquanto escrita?

Aqui a malandragem tem uma conexão direta com o thug life e com o conceito de dupla-fala, a possibilidade de se manter altivo, de dizer pelo indizível/não dito. Pensando com conceitos como escrevivência ou a dupla-fala, vejo a possibilidade de articular a malandragem enquanto desrealização do sentido como meio para descentralizar o tempo-linear e desfigurar o sujeito, torná-lo irreconhecível e retirá-lo das garras da humanidade que a colonialidade produziu, sem dele retirar a demanda ética por cuidado.

O Hip-Hop me ajuda a articular em escrita algo da duplicidade, da sedução, no texto. Encontrar com a malandragem. Criar um entrelugar, espaço simbólico-concreto onde se torna possível demarcar a diferença negra e, ao mesmo tempo, preservar sua alteridade. Uma possibilidade de diferença sem separabilidade que possa estar para a escrita acadêmica normativa como o andar gingado que a língua inglesa traduziu como pimping está para o caminhar. Trago aqui o trabalho de Leda Maria Martins, Rainha de Nossa Senhora das Mercês, porque vejo nesta articulação escrita, o sample textual, a emergência de duas dimensões sobre as quais a escritora se debruçou em seus estudos sobre a linguagem negra a partir do teatro: o segredo e a luta.

Assim, com o Hip-Hop reside a possibilidade de ser o terror:

Eu sou o povo, então posso ser o que quero
Eu sou o baixo salário, o incendiário ou a foice e o martelo
eu sou o barraco de madeira
criança que chora por falta da mamadeira
O catador no final da feira...
O sequestrador sem resgate
O tumulto, a discussão no debate [...]
Eu sou o trator, o rolo compressor
Eu luto pela paz em forma de terror [...]

É o terror, é o terror
Rap nacional é o terror que chegou [...]

Eu sou o detento, mendigo ao relento
Eu sou o júri, o réu, o julgamento
A absolvição, o fim do seu tormento
Ladrão, eu sou o povo, então posso ser o que quero
O verme que corrói a madame no cemitério até o osso
Trabalhador sem nenhum real no bolso
Louco, normal, revolução mental, é o terror!

orquestrar a malandragem

Preste atenção no que é malandragem
E com todo respeito, eu vou falar pra vocês
Malandro tem filosofia e bom procedimento
O verdadeiro malandro, ele sabe de cor os seus dez mandamentos
(pode prestar)
O primeiro mandamento é manter a palavra, custe o que custar
O segundo explica que na vida alheia, ninguém tem direito de se intrujar
O terceiro critica a mineira
O quarto tem ira contra a covardia
Pra quem não sabe o quinto mandamento, ensinar a respeitar
O sexto diz que contra malandragem, a mil falsidade não pode morar
...
Compete ao de número sete dizer ao caído pra não enganar
Ele jamais admite dar volta nos outros pra se levantar
O oitavo não gosta do frouxo, ele dá o serviço na hora do pau
O nono detesta o traíra, traição é pecado mortal
E o décimo mandamento, faz muitas cabeças rolarem
Ele condena o dedo de seta e convoca o carrasco pra executar
Porque malandro que é de verdade prefere morrer do que caguetar

e cultivar o cuidado, como que dizendo: malandragem de verdade é viver.

Pra todas a famílias ai que perderam pessoas importante morô,
Não se acostume com esse cotidiano violento,
que essa não é a sua vida, essa não é a minha vida mano.
Procure a sua paz... 

 
 

Parece que alguém está me carregando perto do chão...
Parece um sonho, parece uma ilusão...

Bença, mãe. Estamos iniciando nossas transmissões, essa é a sua rádio Exodus. Hey, hey vamo acorda, vamo acorda. Porque o sol não espera, demoro. Vamo acorda, o tempo não cansa... Ontem à noite você pediu, você pediu! Uma oportunidade, mais uma chance... Como Deus é bom, né não, nego? Olha aí, mais um dia, todo seu, que céu azul louco, hein?

Você chegou em São Paulo, chorando é claro. Foi o vizinho do seu primo que trouxe sua mãe até aqui, olhe bem pra ela, engula as lágrimas, esse momento é precioso, grave a sua imagem em sua retina mesmo que nada mais possa ser visto. O laço de vocês pode ser inabalável, mas os horários e regras da casa do patrão também o são. Sim, é verdade que seu bisavô construiu aquela casa, enquanto sua bisavó cuidava daquele menino-já-patrão. Sim é verdade que os tijolos recheados de sangue ali foram feitos a mão, por seu bisavô para construir uma casa que sufoca a vida de sua bisavó, sem luz, abafada pelo concreto. Nada disso importa, você chegou.

A rua está cheia, são muitos, quase demais. Uma senhora que se esgueirava por detrás do portão, em meio as plantas; a rapaziada que estava na rua fazendo um som, curtindo; os vizinhos e mesmo alguns de passagem, amigos? que passavam pela rua. Muitos. Vizinhança, amigos, família? Todos gritando (quase) baixinho, todos. Dá medo? Todos dizem o mesmo: seja bem-vinda, você está em casa.

Depois da bênção, o peito amassado, é hora do cerol, é hora do traçado. Quem não cobre fica no samba atravessado, sobe, balão, no céu rezado... 

Tudo por você também. Século XXI, o sonho: Um passo à frente, esqueça o passado, o presente é quente. Talvez você seja a continuação de alguém que no passado representou o perigo também. Na rua, por entre as zoeiras, por entre as frestas, você vê tudo e só alguns te vêm de volta. Aquele corre corre, muita areia, cascalho, terra e barulho: você, a cidade e as obras crescendo juntos. 

Aqueles rostos felizes mudam com o tempo, suas expressões se tornam trabalho: cansaço, exaustão, raiva e pressa. As presenças se tornam trabalho, escassas. Em meio ao barulho do trabalho, você descobre as primeiras palavras, primeiro o silêncio e depois o trabalho. Onde está todo mundo? 

Você se lembra do que foi dito: Nunca mais viveremos em um porão. Você se lembra dos olhos vermelhos, e de uma mão e 3 pisadas fortes que os espantavam. É verdade que é uma transição, um meio do caminho, do fim ao início, mas isso não justifica nada. Você se lembra daquele que não vingou, daqueles que desenvolveram a ciência, daqueles que desenvolveram a cidade, daqueles que alteraram as rotas dos tubarões no Atlântico. Você vê o barco em chamas, o prédio em chamas e a cidade tornanda ao pó. Nunca mais viveremos em um porão, você se lembra.

Se tudo move, se o prédio é santo, se é pobre, mais pobre fica,
vira bucha de balão ao som de funk e apertada a tua avenida...

É vendo e aprendendo. Sua casa pode ser demolida, ela pode alagar. Você pode demorar três horas para chegar no emprego onde você mal recebe o bastante para se alimentar. Pelo menos você tem um emprego. Você pode passar o tempo de esquina, de marola. Você pode estar no corre, tudo é um corre pra quem é correria, só olhar pro teto, isso ai veio da onde? Quem fez? Essa rua, quem asfaltou? A calçada quem varreu? Esse gigante cinza foi vovô quem construiu. Tudo aqui é fruto. Pra quem cuida, toda terra é fértil e aqui, tudo vinga: a periferia é um jardim.

O RG estampado na mochila, protegendo as costas que o pingente de São Jorge não alcança. Um corpo aberto demais, que precisa ser fechado pra caminhar em meio a esse monstro, sem rosto e coração. E pera lá, titio construiu, mas subiu essa porra pra quem? Tô sempre longe pra caralho, tudo é um corre. O busão segue uma merda, mas a catraca baixou, a câmera entrou, o cobrador sumiu e a passagem subiu. Quem que inventou isso ? Quem foi o pilantra que inventou isso aí? Acorda pra vida rapaz. Nois quer também: C.R.E.A.M., cash rules everything around me y eu quero make money money make money money money, de ouro eles se banham, de ouro me banharei... Entre o sonho e a merda da sobrevivência.

Não, comigo não, comigo nunca mais. As coisas agora vão mudar, pois até um cego pode ver que eu não sou o que você diz. Por isso eu não vou mais curvar minha cabeça e nem beijar seus pés, porque... Pois eu descobri que sou um anjo... Eu descobri que sou um anjo...

Igual você, outra revoltada ali, de esquina: viva bem morra rápido. Muito movimento, e mesmo na obra, nunca viu ninguém trabalhar com pedra assim: é atenção, tensão e muito tesão na vida pra brindar com a morte. Mas como disse velho Badu, ela também tem a mãezinha dele, ela tem a família dele, e é ela que vai nos representar no amanhã; quem é você pra julgar quem cheira ou quem fuma? A senhora esgueirada por detrás do portão sabe, e você também: o crime vai, o crime vem, a quebrada tá normal, e você tá também...

...

... No buraco de silêncio que precede o esporro àquele que o tempo é a hora e a hora é mundo em que todo mundo é morro...

De frente para você, outro pobre louco. Chamou no grau e não deu tempo de responder, pá! Um tiro pelas costas, seguidos de outros três, já no chão... A senhora, ali como você, cruza seu portão e anda, em direção a tudo aquilo. Todo mar tem onda...

A chama da vela de reza, direto com o santo conversa:
Ele te ajuda, te escuta num canto, coladas no chão, as sombras mexem. Pedidos e preces, pedidos e preces, pedidos e preces, viram cera quente, viram cera...

Você está em casa. Sobre sua mesa, o corpo a ser velado. Tão cedo, há tempo que caiba essa dor? Sal. Em terra salgada, dizem que nada nasce, mas esse corpo é a prova do milagre, da mentira. Mesmo em terra salgada o sol há de brilhar mais uma vez, a luz chegou. O amor será eterno novamente, mesmo agora? Sal. Você se lembra onde aprendeu a velar um corpo, em meio a terra, a mesma terra, com outra terra, que salgava aquela criança, que já não mais vingaria. O que será que seria? Você se lembra de sua avó.

How many rivers do we have to cross?...
We gonna be burnin’ and a-lootin’ tonight
.

Sua mão quase foi esmagada. Em meio aos ‘pedidos’ para que sua avó resolvesse algumas coisas quando tivesse tempo – aos quais ela ‘feliz’ atendeu – ela aperta sua mão e sai andando, quase te arrastando. Sua avó está andando com você – tudo é mato, e ela conhece o mato. Vocês estão na roça, ela te ensina quais plantas sagradas pegar, para quais males tratar. Ela te ensina pedir agô. Misturam com aguardente, dois vidros, uma para cuidar, outro para vingar. Ela te ensina cuidado.

Ogunhê!

Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge... Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem... Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem... Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam... E nem mesmo em pensamento eles possam ter para me fazerem mal... Armas de fogo meu corpo não alcançaram... Facas e espadas se quebrem sem meu corpo tocar... Cordas e correntes arrebentem sem meu corpo amarrar... Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge...

I’m gonna put on a iron shirt and chase the devil out of Earth
I’m gonna send him to outa space to find another race

Receita de garrafada, por Maria da Silva Santos (2023) Fonte: Acervo do autor (2024).

Você registra tudo isso. Você ouve, vê, vive, senti-pensa isso. Você recolhe essas vozes, mudas caladas engasgadas nas gargantas. Você recolhe a mão apertada e a faca utilizada na mata. Você recolhe a fala e o ato, o ontem, o hoje, o agora. Você ressoa o eco da vida-liberdade.

Them crazy... them crazy...
We gonna chase this baldheads out of town...
Who can stop the tears?
All that we got, it seems we have lost...
Oh stop them!

We gonna chase this crazy, this crazy baldheads, out of the town


 
 

Works Cited

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Ferreira da Silva, Denise. A dívida impagável. Oficina de Imaginação Política, Casa do Povo, 2019, https://casadopovo.org.br/wp-cont... .

———. “Ancestral Claims: Negative Accumulation, Deep Implicancy & the Case for General Emancipation”. Cultural Dynamics, v. 37, n. 3, agosto de 2025, p. 157–69. https://doi.org/10.1177/09213740251363556.

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Krenak, Ailton. “Ailton Krenak comenta ‘A Humanidade e a Natureza’: Prêmio Rio de Letras, 2025.” Prêmio Rio de Letras, 10 July 2025, www.youtube.com/watch?v=X7Ppwg3ftds.

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QUOTE AS:
Aquiles Coelho Silva. A Linha de Fronteira se Rompeu a terra e a palavra. The Living Commons Collective Magazine. N.4, July 2026. p. 29-45